“As cidades não se fazem de um dia para o outro... vão-se fazendo"
NP: O atraso no assumir de gestão por parte das autarquias levou a que a Parque Expo prolongasse a sua paternidade do Parque das Nações, por mais tempo do que estava inicialmente previsto, e, por vezes, assumindo funções que estão fora das suas competências para este projecto. Este atraso leva a que, por vezes, sejam criticados por carências às quais é impossível darem uma resposta, como por exemplo: escolas e centro de saúde. No entanto, as escolas e o centro de saúde estão projectados desde o início. O que pensa sobre isto?
RM: Estamos a confundir duas ou três questões. Sempre esteve previsto que a Parque Expo estivesse ligada a este projecto até 2010. Ainda estamos dentro desse prazo para estarmos ligados e este território. A questão da gestão urbana estava previsto ser tratada pela SGU, onde a Parque Expo participaria na mesma. De facto, com o atraso da entrada das câmaras, por razões diversas, cabe-nos a nós e, em exclusivo, a gestão urbana deste território o que fazemos com muito gosto, porque aquilo que nós pusemos de pé também gostamos de manter e de gerir. Fazemo--lo com todo o sentido de responsabilidade e de serviço público que entendemos que devemos fazer. Obviamente que, neste tipo de situações, somos a única entidade que se encontra para apresentar a normal reclamação.
NP: A Parque Expo tem vindo a assegurar a manutenção do Parque das Nações, enquanto as Autarquias não assumem a sua paternidade. De que forma é que vê essa situação e não considera que seria vantajoso, mesmo depois do assumir de gestão por parte das autarquias, que a Parque Expo continuasse à frente da manutenção dos espaços verdes?
RM: O modelo que hoje está em cima da mesa para ser retomado é o modelo da SGU com uma responsabilidade tripartida e manteremos essa nossa responsabilidade durante o tempo que as Câmaras assim o entenderem.
NP: Como decorrem as negociações com Lisboa e Loures para a transferência de gestão do Parque das Nações, por parte da Parque Expo?
RM: Como sabemos, houve alterações recentes na Câmara Municipal de Lisboa e já foram reiniciados os contactos para retomar essas negociações. Convém, então, não esquecer que o então ministro que tutelava a Parque Expo, em 1999, era o Dr. António Costa, hoje, presidente da CML, e ninguém melhor do que ele para reconhecer e reencontrar o modelo que ele próprio ajudou a conceber e que, agora, já reafirmou ser sua intenção pôr de pé.
NP: O que falta construir e concluir para considerar o projecto Parque das Nações “fechado”?
RM: O que falta fazer não é só construir. Construir, falta pouca coisa, o que falta é “coser” este território com o resto da cidade de Lisboa. O que falta, a nível do plano, em termos relevantes, é fechar o projecto do Parque do Tejo, o PP6, na Zona Norte. Depois, o que falta é a gradual integração e a progressiva ocupação deste território que demora, sempre, mais tempo, mas que até tem vindo a desenvolver-se mais depressa do que estava, inicialmente, previsto. De resto, é um projecto fechado na sua grande proximidade entre o que foi a sua concepção e o que foi a sua realização, que, aliás, é hoje uma das coisas mais internacionalmente discutidas: a grande proximidade entre aquilo que foi o plano e o que é a sua realização.
Outra coisa que falta concluir é a questão da marina cujo início da sua recuperação já foi anunciado publicamente.
NP: Estamos no centro de uma das maiores obras portuguesas dos últimos tempos. Dada à sua dimensão e olhando, agora, para trás (quase dez anos passados), diga-nos o que pensa que correu melhor e o que acha que não conseguiu cumprir as expectativas iniciais?
RM: Eu diria que, pela positiva, temos essa grande capacidade de ter realizado o projecto como foi desenhado e em tão pouco tempo termos posto de pé um projecto tal qual como foi previsto, cozinhado e pensado. É claro que há situações menos bem resolvidas como a questão da mobilidade interna ao PN, mas que é sobretudo resultado de uma resposta individual diferente da prevista. Com a estrutura de transportes públicos, nomeadamente, o metropolitano que aqui fizemos chegar, estávamos à espera que tivesse uma resposta superior de utilização do que a que existe, mas é uma questão cultural e igual ao resto da cidade, uma maior utilização do transporte individual do que o previsto e estimado na altura. Voltando às questões positivas, há aqui que realçar a qualidade do espaço público e a diferença do que é circular, pedonalmente, no PN, comparativamente com qualquer outra zona da cidade ou do país.
NP: E será possível contrariar essa tendência quando iremos ter mais de 60 mil moradores e trabalhadores e cerca de um milhão de visitantes mensais? Grandes empresas nacionais e internacionais, grandes espectáculos, o PN será um gigante centro urbano. Que cuidados, que mecanismos é que são necessários para sustentar uma boa mobilidade, segurança e outros “músculos” importantes para um saudável devir urbano e conseguir evitar, por exemplo, grandes congestionamentos na nossa cidade?
RM: Já temos muitos e não será muito diferente do que poderá acontecer face ao que já acontece hoje. Mas a gestão urbana é exactamente isso: ir-se adaptando gradualmente às alterações diárias que as cidades vão tendo. São entes vivos que vão mexendo e agindo, cabe-nos ir reagindo e ajustando os comportamentos e as acções. E, de uma forma geral, as questões de segurança, da gestão do espaço, da limpeza, da iluminação, estão, hoje, asseguradas e funcionam de uma forma regular. Com alguma dificuldade adicional que é de facto a da mobilidade, mas não nos podemos esquecer, também, que estamos na única zona da cidade de Lisboa onde existe uma área significativa de acesso condicionado de viaturas e, portanto, onde o predomínio e o domínio é essencialmente do peão. É, de facto, a única zona da cidade onde isto acontece e as pessoas reagem positivamente a isso. Não podemos é transformar o PN num espaço exclusivamente pedonal e, portanto, as zonas de fronteira são as zonas de maior conflito.
NP: Acha que o projecto global Parque das Nações tem excesso de construção?
RM: Não há uma resposta certa. Há discussões várias que se podem ter e posições que se podem defender, mas todas elas devem ser enquadradas no que era o projecto. E sobre isso há que dizer uma ou duas coisas. A primeira é que o que está construído é exactamente aquilo que estava no plano e, portanto, não há aqui e, como muitas vezes se houve dizer, erradamente, uma betonização, uma densificação da construção. Não há, tudo o que vemos à nossa volta foi previsto desde a primeira hora. Segunda: o modelo que aqui foi proposto, aprovado e defendido, tinha como principal objectivo a criação de uma nova centralidade para a cidade de Lisboa e as centralidades têm densidade ou não chegam a ser centralidades. As centralidades têm que ter capacidade de atracção para serem centralidades. Portanto, esta densidade foi prevista. Densidade quer dizer construção com alguma expressão. É por isso que estão cá as empresas e é por isso que o PN tem a atractividade que tem.
NP: Sendo o PN centro urbano com grandes empresas e, de certa forma, pensado para o novo século, considera que seria importante tentar-se inovar a gestão urbana, nomeadamente, com uma participação mais activa das empresas presentes como, por exemplo, o que acontece nos EUA, onde a criação dos BID´s proporciona a acção do sector privado na ajuda para a resolução de problemas públicos com a contrapartida de benefícios fiscais?
RM: É sempre bom procurar situações inovadoras e criativas para gerir um território. E este território é uma unidade que permite esse tipo de inovações. Não temos é, culturalmente, muito esse tipo de tradição. De qualquer modo nós queremos introduzir um modelo de gestão participativa neste território e queremos, no ano que vem, pôr de pé essa gestão participativa com a presença das associações e das estruturas que tenham representatividade local, como a Associação de Moradores e a Associação Náutica da Marina. Queremos por de pé a nossa própria Agenda XXI e construí-la de uma forma participativa, ouvindo os “stakeholders” deste território. Vamos fazê-lo através de uma dimensão digital, com um portal urbano que permita ligar todos estes activos urbanos.
NP: O Notícias do Parque trouxe uma questão para colocar por cada uma das Associações que acompanham o desenvolvimento do PN, desde o seu início.
Ficam duas questões levantadas pela Associação de Moradores e pela Associação Náutica da Marina Parque das Nações.
Tendo em consideração que, após um prolongado e penoso processo negocial, as obras de recuperação da Marina vão, finalmente, avançar, dotando a Zona Sul do Parque das Nações dum equipamento de elevado padrão de qualidade, não lhe parece que a zona norte fica a carecer de um equipamento ao mesmo nível, embora em área diferente? Pensámos, nomeadamente, num Parque Temático ou num Centro Equestre, como, de resto, tem estado previsto nos Planos de Urbanização e Pormenor, para os quais estarão a ser negociadas alterações com a Câmara Municipal de Loures. Qual a posição da Parque Expo referente a esta matéria?
RM: A zona do Parque do Tejo é o que falta para terminar este projecto, porque o pólo lúdico que para lá está previsto não encontrou ainda resposta do mercado que o desenvolvesse. Nunca esteve previsto um centro equestre. O que está previsto é uma zona lúdica comercial e essa ideia não está abandonada, o mercado é que, apenas, ainda não está a reagir. É importante referir, também, que não é por haver um pólo interessante, na Zona Sul, que tem que existir um na Zona Norte. A Zona Norte tem uma perspectiva urbana diferente da Sul. Têm existido outras procuras para essa zona mas temos recusado, precisamente, porque não estão previstas no plano.
NP: Que tipo de ocupações?
RM: Ocupações dos mais diversos tipos, como, por exemplo, soluções mais ou menos industriais, mas como não estão previstas, não as podemos acolher. E como as cidades não se fazem de um dia para o outro, vão-se fazendo, portanto, aqui, acho que o tempo pode ajudar a encontrar a resposta de mercado que se enquadre no plano. Não escondemos que temos falado com a Câmara Municipal de Loures e que está a ser discutido o assunto mas, ainda, no plano das meras hipóteses porque qualquer alteração passa por uma revisão do plano que terá que ser objecto de um intenso processo.
NP: Mas o que espera para aquela zona, como a imagina dentro de cinco anos?
RM: Espero que, daqui a cinco anos, aquilo que está previsto no plano esteja realizado.
NP: A posição que tem vindo a público por parte da ANMPN é que, após a adjudicação da obra, todos os esforços vão estar voltados para a promoção da infra-estrutura, actuando de forma articulada com a Parque Expo e a Marina Parque das Nações, sem que existam quaisquer ressentimentos pelo passado...! A Parque Expo está aberta a esta colaboração?
RM: A Parque Expo nunca levantou a questão de ressentimentos com o passado, nunca coube à Parque Expo ter atitudes tão acesas e, por vezes, tão críticas como o outro parceiro teve. Sempre nos pautámos por um registo mais sereno e construtivo e esse manteremos com certeza.
NP: Para terminar, uma questão que deixamos sempre aos nossos entrevistados: qual é a cidade, no Mundo, que mais o surpreende e porquê?
RM: Eu diria que é Nova Iorque mas por razões que não têm a ver com a qualidade urbanística por si mesma, mas mais pela diversidade da oferta. É uma cidade onde se pode chegar qualquer dia e encontrar 20 ou 30 coisas diferentes para fazer e é isso que faz também a riqueza da cidades, essa diversidade de oferta, em matéria de software, não pelo lado físico da cidade, mas pela cidade viva e, para mim, é por isso que Nova Iorque é única.
in "Notícias do Parque" @ Dezembro 2007
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