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Eventos:2004-10-05

Um passeio no Tejo até Valada...

Dois elementos da Direcção da ANMPN decidiram efectuar um passeio até Valada. O trajecto até Vila Franca de Xira já era conhecido de ambos os velejadores, mas o restante constituía ainda um desafio. A navegação fez-se fundamentalmente com base num Guia editado pela Associação Nacional de Cruzeiros já com vários anos, o qual teve de ser complementado com um conjunto de outras referências e precauções, face à evolução natural dos fundos naquele trajecto, onde não existe qualquer balizagem. Como informação, refere-se que os dois veleiros de 10 metros de comprimento, Odisseia e Imagine, têm de calado 2 e 1,40 metros, respectivamente.

Deste passeio, ficaram registadas algumas fotografias que atestam o "paraíso" que a Bacia do Rio Tejo encerra, bem como, alguns alertas para ameaças que podem vir a destruí-lo, se não forem tomadas medidas adequadas....!



A Saída de Lisboa teve lugar no Sábado dia 2 de Outubro, cerca das 11:30, hora da Baixa-mar. O objectivo foi efectuar todo o trajecto até Valada com a "Enchente" da maré, de modo a ser possível solucionar em pouco tempo, qualquer situação de encalhe das embarcações.


A beleza associada ao Parque das Nações fica enaltecida quando, no estofo da maré baixa, a ausência de vento conduz a um rio completamente espelhado, reflectindo nas suas águas as imagens de toda a infra-estrutura da Expo'98.

As duas fotografias que se seguem, valem mais que mil palavras....!

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Depois de passar a Ponte Vasco de Gama, que ocorreu cerca das 13:00 seguimos com muita atenção no Canal das Barcas ou do Sul, dado que, no estofo da maré baixa, em águas grandes, qualquer distracção pode conduzir ao encalhe das embarcações. Mesmo assim, o Odisseia, no trajecto entre a Bóia nº 8 (Vermelha) e a Bóia nº1 (Verde) acabaria por encalhar, mas a deslocação da tripulação para a prôa da embarcação, e com a ajuda da "enchente" da maré, foi possível ultrapassar aquele obstáculo e prosseguir viagem.

Junto à referidas bóias, conforme se pode verificar na cartografia do local editada pelo Instituto Hidrográfico, existem dois canais profundos: Um balizado pelas bóias 6, 8 e 10, e outro balizado pelas bóias 1, 10A e 1A. Na zona entre estes dois canais, a carta aponta para valores de sonda reduzida da ordem de 1,5 metros. Decorridas que estavam duas horas sobre a maré baixa, deveríamos contar com cerca 2,5 metros de água. No entanto, os valores encontrados no local por ambas as embarcações, foram bem inferiores a este, situação que denota alguma falta de dragagem no local para manutenção das condições de navegabilidade....!


Depois de ultrapassada a dificuldade anterior, o trajecto não apresenta quaisquer problemas até Vila Franca. Pelo caminho, foi possível avistar a bonita Vila de Alhandra com a sua Marina, seguida da Cidade de Vila Franca de Xira, que se pode ver na fotografia acima.

A Marina de Vila Franca tem condições muito boas de atracagem, com um cais de recepção que faz inveja a qualquer marina de Lisboa. Já não há razões para que os passeios para montante no Tejo, terminem junto à Ponte Vasco da Gama..! As condições de atracagem que neste momento passaram a estar disponíveis em Alhandra e Vila Franca nas duas marinas que ali foram construídas, convidam a passeios mais longos, desfrutando de uma refeição ou de uma estada mais prolongada em ambos os locais.


A passagem pela ponte de Vila Franca, que teve lugar às 15:15, marcou o início da nova etapa. Efectivamente, a partir desta altura, o percurso era desconhecido de ambos os velejadores. Por outro lado, a ausência de qualquer balizagem, marcava de algum modo o desafio deste passeio. Os dados do Guia da ANC, mesmo com o risco de estarem desactualizados, seriam suficientes para levar o barco a bom porto...?
As margens do Tejo, com os sua magnífica vegetação a cair sobre as águas, produzem uma tonalidade esverdeada que contrasta com o azul da água no centro do rio, conforme se pode ver nas fotografias em cima e em baixo respectivamente.


A segunda dificuldade surgiu-nos na identificação do local assinalado no Guia como Cais da Ferra, já que, esta conhecença era importante para a mudança de margem. Fizemos várias tentativas para cruzar o rio naquele local, mas nenhuma delas bem sucedida. O alarme da sonda não nos dava tréguas....!

Entretanto, verificámos que outra embarcação cruzou o rio sem dificuldade, a jusante do local onde nos encontrávamos. Efectivamente, esta mudança, deve fazer-se junto à linha de alta tensão antes do Cais da Ferra, conforme já alguém tinha assinalado, de forma manuscrita, na página respectiva do Guia da ANC que nos acompanhava, e nós não nos apercebemos....!

Assim, cerca de 200 metros para jusante do local onde nos encontrávamos, fizemos a mudança para a margem esquerda sem qualquer dificuldade, com fundos da ordem dos cinco metros.

Mais uma lição apreendida...!


Vencido mais um obstáculo, navegou-se novamente sem dificuldade até ao Cais da Palhota, que ocorreu às 18:00 horas, e que pode ser visto na bonita fotografia acima. Daqui já era possível avistar a Vila de Valada do Ribatejo, destino final do passeio.


Como diz o ditado que não há duas sem três, e a terceira dificuldade surgiu em frente à Quinta do Escaroupim, para encontrar uma passagem entre as duas margens. A primeira tentativa, contornando o Mouchão de Valada por bombordo, foi infrutífera, e mais uma vez, o alarme da sonda não nos deu tréguas....! A segunda tentativa, contornando o mouchão por estibordo, foi bem sucedida, muito embora os fundos estivessem no limite do calado do Odisseia, ou seja, 2 metros.

Na chegada a Valada uma surpresa inesperada...! Um autêntico "enxame" de motas de água, circulando à volta das embarcações, transformando toda o sossego daquela magnífica paisagem e a pacatez de uma linda vila, num autêntico "inferno" de ruído estridente.


A chegada a Valada ocorreu às 18:30, e depois de proceder à amarração das embarcações no pontão que se pode ver na fotografia acima, era altura de visitar a Vila e escolher um local para jantar.
Entretanto, com o crepúsculo, e com a saída de cena das motas de água, o encanto desta vila tomou forma e foi possível encontrar a tão almejada tranquilidade e sossego que caracteriza a Vila de Valada. Como vem referido no Guia da ANC, "... aqui, até o tempo descansa...!".


O Jantar teve lugar no restaurante Campitejo (Casa das Enguias), que fica na rua por detrás do dique que defende a Vila das enchentes do rio. Apesar do Restaurante só servir jantares por encomenda, a simpatia daquelas gentes ultrapassou de imediato a regra, e tudo fizeram para confortar as duas tripulações de marinheiros recém chegados e com muito esfomeados...!

Começámos com um prato de enguias fritas, seguidas de entrecosto, sempre bem "regado" com o vinho tinto da região...!

Sentimo-nos de tal forma "em casa" que o almoço do dia seguinte ficou logo ali encomendado. Imaginem o sabor de uma refeição caseira, servida debaixo de uma latada. Muito embora as uvas já tivessem sido colhidas, a sombra e a frescura continuavam lá....!


A noite em Valada foi muito bem passada. O silêncio e o sossego da vila, apenas são periodicamente interrompidos pelo bater das horas do relógio da Igreja, que fica muito perto do Pontão de amarração das embarcações.


O dia amanheceu com um sol radioso e bastante calmo em termos de vento. As águas espelhadas do rio reflectem o casario ribeirinho, proporcionando bonitas imagens como o demonstram as fotografias acima.


É Domingo, e ao amanhecer a vila está praticamente deserta. Está na altura de encontrar de um Café para tomar o pequeno almoço, seguido de uma visita à vila. Efectivamente, no dia anterior, como a fome "apertava", fomos directos ao Jantar e nem houve tempo de visitar a vila. Agora, pelo fresco da manhã, ia saber bem melhor....!


A pouco e pouco, começamos a encontrar as primeiras pessoas que se dirigiam à Igreja para a missa de Domingo. A Vila, de repente, começou a ganhar vida, e mais uma vez foi possível constatar a simpatia e hospitalidade daquelas gentes...! Encontrámos também alguns peregrinos que seguiam em direcção a Fátima para o 13 de Outubro, e que fizeram uma paragem naquele local para descansar. De facto, nada melhor para reconforto de uma caminhada, que o sossego e tranquilidade proporcionados por Valada.

De repente, e à medida que nos aproximámos da hora de almoço, eis que a calma do local foi de novo completamente abalada pela entrada em cena das motas de água. Como é óbvio, nada temos contra as motas de água, desde que respeitem os regulamentos em vigor, nomeadamente, as distâncias de resguardo que devem manter das praias e ancoradouros, e as zonas a que podem circular a alta velocidade. É perfeitamente incompreensível e inaceitável, passagens a alta velocidade apenas a alguns metros do pontão de amarração, e usar toda a zona da praia para teatro de acrobacias...! Em Portugal, costuma-se matar as "galinhas dos ovos de ouro"...! Ao que parece, a Junta de Freguesia de Valada não deve estar atenta a esta situação, e permite que uma das riquezas daquela vila, que está assente na paz, sossego e hospitalidade das suas gentes, seja completamente subvertida pela total indisciplina de alguns proprietários de motos de água, que muito provavelmente nem estarão habilitados para as conduzir, face ao completo desrespeito do regulamento da náutica de recreio.

O Guia da ANC diz que os sinos só se ouvem na primeira noite....! Não conseguimos tirar a "prova dos nove", já que, depois do almoço, já sentíamos um zumbido nos ouvidos do barulho constante das "motas de água". Com alguma tristeza, resolvemos deixar Valada, antecipando o regresso, e vir dormir a Vila Franca de Xira.


O regresso foi iniciado às 16:30, com um rio de águas calmas como se pode ver na fotografia acima. Algumas centenas de metros a jusante, e numa praia já longe do incómodo das motas de águas, vimos algumas pessoas deliciando-se com um rico banho numa praia fluvial (fotografia abaixo)

Junto à Vala de Salvaterra de Magos, a paisagem foi de novo enriquecida pelo aparecimento de algumas embarcações tradicionais do Tejo, conforme revelam as fotografias abaixo.
 
 
 
 

A passagem pela Central Termoeléctrica do Carregado em pleno pôr do sol conduziu à fotografia acima, que concerteza poderá vir a capear qualquer trabalho de discussão sobre energias poluentes e renováveis...! A chegada a Vila Franca ocorreu às 20:00 aproximadamente. Já era noite e a aproximação por norte ao cais de amarração fez-se com alguma dificuldade, devido à ausência de luz. Efectivamente, só se consegue identificar com rigor o cais de amarração a uma distância muito pequena deste, situação que obriga a tomar decisões muito rapidamente sobre a manobra de atracagem a executar. Uma melhor iluminação do cais de amarração facilitaria esta aproximação.


Depois de um magnífico Jantar no restaurante "Forno", onde saboreamos a rica carne de vaca da região ribatejana, devidamente "regada" com o famoso vinho daquelas paragens, a noite foi um regalo...!
Normalmente, o balanço da embarcação ajuda a embalar e o sono aparece num instante...! Desta vez nem foi preciso embalar...!
No dia seguinte, o amanhecer conduziu à bonita imagem acima. Estava na hora de tomar o pequeno almoço e aproveitar a boleia da maré para regressar à Doca de Alcântara. Infelizmente, o processo de recuperação da Marina da Expo só tem duas velocidades (devagar e parado), e ao que parece, a maior parte do tempo está engatado na segunda velocidade....!


Na fotografia abaixo, pode ser visto o magnífico cais de amarração da Marina de Vila Franca de Xira, bastante extenso, permitindo uma atracagem sem dificuldade. Apenas na aproximação por norte, efectuado já durante a noite, sentimos alguma dificuldade, como já anteriormente referimos.

Iniciada a viagem de regresso, assinalamos nas fotografias abaixo a passagem pela vila de Alhandra, com uma infra-estrutura de marina de dimensão apreciável, que constitui mais um bom exemplo de recuperação da zona ribeirinha do Tejo. Fica a promessa de uma visita próxima, para explorarmos o local de forma mais detalhada.
 
 


Finalmente, a chegada ao Parque das Nações. Muito embora não tenha sido possível ficarmos na "nossa" marina, acreditamos que, nos passeios do próximo verão, já não teremos de rumar novamente para docas alternativas. Os processos em Portugal costumam demorar mais do que no resto da Europa, mas neste caso, já vamos com três anos ....!

Até à próxima viagem...!

Se quiser comentar este artigo envie um mail para eventos@anmpn.pt

Comentários:

O artigo acima gerou um conjunto significativo de comentários dos associados e visitantes do Site, os quais, de uma forma geral, podem ser classificados em dois grandes grupos:

Felicitações pela iniciativa de partilharmos o passeio, que para muitos, relevou-se como uma oportunidade de tomarem conhecimento da beleza que caracteriza a zona ribeirinha do Tejo, praticamente desconhecida....!


Contribuições de outros nautas, já com experiência neste percurso, e que deixaram algumas sugestões, como o objectivo de facilitar e tornar mais segura, a navegação na área em apreço.
Pelo interesse que o segundo grupo de comentários revela, optamos por efectuar a sua publicação.


Comentário à viagem a Valada (Jorge Duarte):

Em Valada a preia-mar ocorre cerca de 2:30h após a homóloga em Lisboa. O que quer dizer que para o percurso em vez de seis horas teremos 8:30 com a maré sempre a encher.

Assim é sempre melhor partir com cerca de 3:00h após a preia-mar, obtendo-se as seguintes vantagens:


a) Maiores sondas à hora, antes e após a Ponte Vasco da Gama, visto ser uma zona complicada;

b) Uma maior corrente de enchente o que implica menores gastos de combustíivel e maior velocidade com uma redução do tempo despendido na viagem. (no total cerca de 4:30 a 5:00h - veleiro)

c) Maiores sondas à hora à chegada a Valada o que permite uma entrada mais fácil;

d) Em caso de largarmos ferro, chegamos mais perto da preia-mar, para colocar o ferro principal a montante, no lado das maiores correntes.


Saudações Náuticas

Jorge F. Duarte
("Leão Marinho II")


Comentário à viagem a Valada (Sardinha Monteiro):

(...)

Não quero terminar sem lhe agradecer o comunicado que nos enviou, assegurando-lhe que a situação vai ser adequadamente analisada. Vou encaminhar o seu assunto para o Chefe da Divisão de Navegação.

Com os meus cumprimentos,

Sardinha Monteiro


NV - Cte. Sardinha Monteiro
Instituto Hidrográfico


Comentário à viagem a Valada (Luís Mota Figueira):

Artigo excelente com comentários acertados e por quem conhece bem a experiência marítima e a transmite com grande qualidade didáctica e pedagógica.

Luís Mota Figueira
Professor Coordenador - Director do Departamento de Gestão Turística e Cultural
Instituto Politécnico de Tomar
lmota@ipt.pt

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