Todo o Cuidado é Pouco!
Os acidentes em navegação ocorrem
normalmente devido a um erro,
ou a uma sucessão de pequenos
erros em matérias de natureza simples,
quase sempre na operação de equipamentos
de navegação ou na interpretação da informação disponível. Por isso, aconselha-se a adopção dos seguintes procedimentos
genéricos:
a. Toda a navegação a efectuar deve ser planeada em detalhe suficiente, devendo sempre considerar-se planos alternativos;
b. Deve existir uma tal organização que permita:
(1) Elucidar todos os envolvidos na navegação sobre o plano a seguir;
(2) Determinar a posição e monitorizá-la
constantemente, utilizando sempre que
possível mais do que um método, a fim de detectar erros ou falhas;
(3) Verificar as decisões de tal forma que os erros possam ser detectados e corrigidos atempadamente;
(4) Utilizar, com precaução, a informação
do seguimento da navegação circundante
(radar), visto tratar-se de informação
dinâmica.
c. Deve promover-se o uso óptimo e
sistemático de toda a informação de navegação
disponível a bordo. Podem identificar-se quatro fases distintas
no planeamento duma viagem:
- recolha da informação relevante;
- planeamento da viagem;
- execução do plano atendendo às condições existentes; e
- monitorização do progresso da viagem comparando-o com o plano.
1. Recolha de informação
Nesta fase inclui-se a determinação ou
identificação dos riscos e das áreas críticas
ou perigosas, confrontando-as com as
características da própria embarcação (como
o calado) e as exigências de segurança (como
o pé-de-piloto). Além disso, é necessário
considerar o estado da própria plataforma
e dos equipamentos, ou seja, estabelecer
quais os limites de segurança adoptando
uma margem adequada a cada situação.
Para a recolha de informação devem
utilizar-se as Cartas e Publicações Náuticas
Oficiais, incluindo Roteiros, Tabelas de
Marés e Listas de Ajudas.
2. Planeamento
Seguidamente, efectua-se o planeamento que deverá cobrir toda a viagem, do ponto de largada ao ponto de chegada, incluindo, portanto, a largada e a acostagem.
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As derrotas são marcadas e em todas as cartas utilizadas devem estar assinalados todos os perigos – e, quando aplicável, os resguardos necessários. São ainda
assinaladas as efemérides do Sol (por condicionarem a vida de bordo) e a forma como se conduz a navegação.
É preferível optar por derrotas mais compridas mas em águas mais safas, do que cair na tentação de escolher um caminho mais curto mas acidentado.Na determinação das distâncias de resguardo aos perigos deve estar presente a possibilidade duma falha de propulsão ou governo. Deve ser marcada nas cartas toda a informação adicional relevante como objectos conspícuos visuais e radar, ajudas à navegação, enfiamentos, azimutes e distâncias de resguardo ou linhas de resguardo para uso no radar. |
Dificilmente todos os factores da
viagem poderão ser previstos ou conhecidos
em antecedência e por isso reflectidos
convenientemente no planeamento
antes da largada, sobretudo no que respeita às áreas portuárias ou que normalmente
exigem pilotagem – ocasiões em que o
plano pode necessitar de sofrer profundas
alterações. Contudo, o plano não deve ser
desvalorizado; pelo contrário, permite
que com antecedência se conheça de
forma geral a área a navegar, os perigos
mais notáveis e os cuidados ou procedimentos
especiais a adoptar, possibilitando
saber com antecedência se a embarcação
está a proceder para águas sujas.
3. Execução
Na execução do plano devem considerar-se factores mutáveis, como, por
exemplo, o estado do tempo e correntes
de maré, que podem condicionar o plano
obrigando à sua revisão.
4. Monitorização
A monitorização da posição do navio,
comparando-a com o planeado, deve ser
um processo contínuo. Sempre que exista
uma dúvida quanto à verdadeira posição
do navio, ou acerca da progressão geral da
viagem em relação ao planeado, tal deve
ser comunicado ao patrão ou skipper.
O estado de operacionalidade dos equipamentos de navegação deve ser verificado
antes de largar, antes de entrar em
águas restritas ou perigosas, e de forma rotineira,
regular e frequente durante a viagem.
Deve tirar-se o maior partido de todos
os equipamentos de navegação disponíveis,
tendo em conta o seguinte:
a. As posições obtidas através de sistemas
de posicionamento electrónicos devem
ser, sempre que possível, verificadas com
o recurso a azimutes visuais;
b. Devem usar-se pelo menos três
linhas de posição aquando da marcação
dum ponto;
c. Os enfiamentos, azimutes de
resguardo e distâncias de resguardo (radar),
podem ser de grande ajuda;
d. É perigoso confiar num único sistema
de posicionamento;
e. O sondador é um meio de verificação
importante, comparando a profundidade
lida com a da posição marcada na carta;
f. Apesar de as bóias não deverem ser
utilizadas para marcar posições, fornecem
uma ajuda preciosa indicando as águas
navegáveis; essa ajuda é tanto mais importante
quanto mais difíceis de distinguir
forem as marcas na linha de costa. De qualquer
forma, a posição das bóias deve ser
confirmada por outros meios;
g. Devem confirmar-se as posições das
estruturas ou plataformas off-shore com os
mais recentes avisos aos navegantes;
h. Deve verificar-se o correcto funcionamento
e calibração dos instrumentos
utilizados ou a utilizar;
i. Deve ser acautelado o erro de cada
sistema e a exactidão do posicionamento
quando se utiliza um sistema de posicionamento
electrónico; e
j. A frequência da determinação do
ponto deve variar em função da proximidade
aos perigos e da velocidade a que se procede.
No âmbito da monitorização, e em
termos de segurança da navegação, mais
importante do que marcar o ponto na
carta é gerar a carteação e estima após
cada ponto a fim de determinar a posição
futura da embarcação e verificar eventuais
situações de perigo.
CFR PROENÇA MENDES
CHEFE DA DIVISÃO DE NAVEGAÇÃO
navegacao@hidrografico.pt
Todo o cuidado é pouco! - Artigo publicado no Boletim do Instituto Hidrográfico - Hidromar -, aqui reproduzido com autorização do autor. |
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